Hoje fui ao cinema ver o famoso filme Avatar, confesso que sempre tenho certo receio em ver filmes, ler livros, assistir uma peça de teatro quando estes lotam salas e se tornam Best-sellers ao redor do mundo. Não pelo fato de serem ou não bons, mas pelo fato da expectativa que criamos diante de tanta propaganda que muitas vezes subestima e impede a nossa capacidade de perceber e refletir.
O filme se trata certamente de uma guerra, entre a realidade e o que por várias vezes é citado como conto de fadas. Nesse conto de fadas conhecido também como Pandora, encontramos seres chamados Na’vis, cujo único objetivo é administrar suas comunidades de forma respeitosa e holisticamente com a natureza. Dentro de uma organização social matriarcal, a mulher está sempre em destaque, pondo em prova sua verdadeira capacidade de caçar, cantar e tomar decisões sérias na tribo. Inclusive seus ritos espirituais são dirigidos à Eywa, mãe-natureza responsável pelo equilíbrio da vida em Pandora.
Quem conhece a história mitológica da Caixa de Pandora, encontra muita relação com o filme, diante tal beleza e equilíbrio natural em que vivem os Na’vis, o homem com o seu poder colonial de exploração e sua ambição materialista encontra em Pandora um local excelente para expor todos os seus males. Esperamos então, durante todo o filme, de que forma a esperança sairá do fundo da caixa e resolverá a destruição já causada por nós seres humanos. Sentimos uma força angustiante ao perceber tudo isso, vemos o que somos e o que fomos, é como se levássemos um tapa na cara e não tivéssemos o direito de desviar.
Os Na’vis estão em pleno contato com a natureza, eles fazem parte dela como um todo, possuem organismos que servem de elos, cuja função é entrar em contato com os sentimentos e sentidos de qualquer animal, mineral e vegetal que possa existir nesse planeta. Não tenho a menor dúvida de que se não existisse televisão, celular e computador, já teríamos na cabeça os fios luminosos de contato com a vida que aparecem no filme (risos).
A morte assume um papel digno e importante, os velhos e os ancestrais são fontes de conhecimento, sabedoria e ternura. Não existe fome, sede, doença e apropriação privada de moradia. São todos livres e capazes de subsistência e não possuem a relação de exploração do “homem pelo homem". A idéia do coletivo e o ‘espaço do outro em si’ pode ser muito bem observado. Talvez tudo isso seja mesmo um conto de fadas, então nos tornamos cientistas e provamos cientificamente de que nada disso é possível. Depois de um filme como este, voltamos pra casa com um nó na garganta, com a sombra da culpa do que fizemos com a gente mesmo. O filme é a guerra do que há em nós e ao nosso redor, é um apelo por aquilo que ainda podemos preservar, pelos verdadeiros valores e por tudo aquilo que fazemos enquanto sabemos que fazemos tudo errado.